terça-feira, 15 de junho de 2010


Marasmo


Estranhamente estou contestando meus versos
Reprises do mesmo tema que não saem do lugar.
Enfadonha mesmice que chega a enjoar.
Tanto a ser desfiado neste imenso universo
E eu presa nesta teia que se torna banal.
Cansei de ater-me a estes temas tão visados
E por todos, tantas vezes declamados.


Devo estar com uma espécie de ócio mental:
Preguiça de pensar...


-Helena Frontini-

Encantamento


Preparei para tua chegada um caminhos de estrelas
Ajaezado com todos os mistérios da natureza
Para que te encantes com meu amor.


Pedi às flores suas tintas vitais e perfumes exóticos
Adornei teu leito de bordados e sonhos eróticos
Para que te encantes com meu amor.


Colhi as uvas seletas da vindima e o trigo do chão
Cobri a mesa de iguarias, vinhos, frutas e pão.
Para que te encantes com meu amor.


Banhei-me com langor na fonte pura e vaporosa
Enfeitei minha nudez com uma rubra rosa
Para que te encantes com meu amor.


-Helena Frontini-

domingo, 13 de junho de 2010


Intimismo


Animais feridos recolhem-se à sua dor.
Guardam-se na toca em suspensão.
Assustados, ariscos, quedam em estupor
Esperando cura ou o desfecho final.


Há momentos em que sou bicho da cidade
Enjaulada à merce de olhares alheios
Sem um canto certo para deitar a desolação.
Espiam-me de forma generosa e abissal
Jogam-me migalhas de solidariedade...


Tudo o que desejo é ver-me livre de enleios
Lambendo minhas feridas em solidão.


-Helena Frontini-

sexta-feira, 11 de junho de 2010


Justa causa


Num átimo percebi a serventia que me dás...
Repositório de tuas dores quando precisas chorar
Vaso aberto e afoito a recolher com meu ardor
Tuas lágrimas e fluidos quentes de homem.
Desnudo-me lambendo tuas feridas em chagas
Com o riso disfarçado de estar contente.


Quando queres, eis aquí teu pote de mágoas
Caldeirão fervilhante de dissabor...
Não deixes que se derrame uma só gota
Destas águas que noite e dia me consomem
Somem na terra,evaporam-se no ar
Exatamente como meu amor.


-Helena Frontini-

sexta-feira, 4 de junho de 2010


Gratidão...


Pelo verde que a vista alcança encontrando o azul
Do céu num raio azul que gera comunhão.

Pelo claro que adormece o cansaço e pelo escuro
Que trás descanso à mente em danação.

Pelo nua flor entre-aberta,os espinhos e a doçura
Dos espinhos que protegem a mansidão.

Pela água perene que deu vida,escorre pela veia
Rebate na terra e se mistura à criação.

Pelo madurar do fruto,tenro embrião,o filho maduro
Que faz rebento e fruto que faz união.

Pela página em branco, lasca de mata que renasce
Na cor da palavra que lavra a inspiração.


-Helena Frontini-

Como antigamente


Ah! se teu abraço envolvesse minha cintura fina
E meu braço apoiasse em teu ombro largo...
Segurarias minha mão como galante cavalheiro
E me atrairías de leve ao teu porte garboso.


Estarias paramentado como astro de cinema:
Brilhantina, gravata borboleta, cravo na lapela.
Eu, feito diva com meu decote e os laçarotes
Num vestido de baile sensual e vaporoso.


Uma orquestra romantica tocaria em galhardia
Canções dolentes como não se fazem mais.
Iríamos rodando pelo salão nosso doce enrêdo:
Artistas de um filme em extinção.


-Helena Frontini-

quarta-feira, 2 de junho de 2010


Luzes da alma


Escolhi não ter medo e abrir meu coração
Uma tocha acesa de luz envolvente.

O sofrimento quis-me encolhida e obscura
Pobre de anseios, esperanças ausentes.

Meu ser é de brilho, de valores adquiridos
De verdades inatas, de absorção.

Recaio e me ergo em cada queda brusca
Sem deixar a luz que se fáz fremente.

Minha alma é feita de sonhos permitidos
Independe do corpo de mornidão.


-Helena Frontini-